Edição n. 02 / Dezembro de 2012
     

     Editorial

    O projeto da Revista Movimento surgiu de uma inquietação. Diante das inúmeras pesquisas de mestrado e de doutorado atualmente em realização no programa de pós-graduação em Meios e Processos Audiovisuais da ECA-USP, resolvemos nos organizar para a criação de um periódico discente que permitisse a exposição dos resultados de trabalhos acadêmicos ainda em processo. Preocupados com a circulação restrita de boas pesquisas, montamos a Revista Movimento como uma tentativa de fazer do meio eletrônico um mecanismo para a divulgação do conhecimento na área do audiovisual. Em junho de 2012, quando lançamos o primeiro número da nossa publicação, o resultado foi um dossiê com treze artigos, todos escritos por alunos da ECA-USP, e que ofereceriam ao leitor um panorama dos estudos que estavam em desenvolvimento naquele departamento.

    Embora o periódico tenha nascido com as pretensões acima assinaladas, voltado completamente para as pesquisas discentes de um programa específico de pós-graduação, é diante de certa surpresa que anunciamos o novo número da revista como um ultrapassar dos limites originais. 

    Quando lançamos a chamada para a publicação de textos nessa segunda edição, concentrando esforços na montagem de um dossiê em torno do cinema na América Latina, não imaginávamos que receberíamos artigos escritos por acadêmicos pertencentes a diversas universidades de dentro e de fora do Brasil. Dos quinze textos recebidos pela Revista Movimento para avaliação, nove foram selecionados pelos pareceristas. São estudos provenientes dos departamentos de Geografia, História e Antropologia da FFLCH-USP, da Escola de Comunicação da USP, do Instituto de Artes da UNICAMP (Campinas), do curso de Cinema da UNISUL (Santa Catarina), do setor de História da UNESP (Assis), da área de Comunicação da UFMG (Belo Horizonte) e do departamento de Comunicação Social da Universitat Pompeu Fabra (Barcelona). 

    Um rápido passar de olhos sobre esses dados é indício de que o periódico adquiriu uma circulação inicialmente não prevista por nós, tornando-se um espaço eletrônico com capacidade para uma troca mais intensa de ideias e de pesquisas. O resultado desse segundo número nos alegra e ao mesmo tempo nos preocupa: como manter a continuidade de uma publicação onde todos são voluntários e encontram-se em meio às inúmeras obrigações da vida acadêmica?

    O leitor da Revista Movimento encontrará nessa edição um dossiê intitulado “América Latina” e que reúne novos olhares a respeito do continente latino-americano, enriquecidos pela multiplicidade de temas e enfoques. A realização audiovisual enquanto prática de resistência, os posicionamentos diante de um passado militar recente, bem como os tratamentos dados à miséria e à violência, convivem com o questionamento da América Latina atual, incluindo visitas a Argentina, a Colômbia, ao Chile, a Cuba e ao Brasil.

    Vanderlei Henrique Mastropaulo aborda os filmes de Adolfo Aristarain, realizados no início dos anos 1980, identificando os traços do gênero policial e a crítica ao regime militar argentino. Viviana Echávez Molina, por sua vez, enfatiza os críticos e cineastas colombianos do Grupo de Cali. O ponto de partida é Agarrando Pueblo (1977), que denuncia a encenação da pobreza, ironiza a linguagem do documentário e contrapõe-se ao tratamento da miséria com fins comerciais. Sob um viés antropológico, Diana Paola Gómez Mateus atem-se ao cinema colombiano recente, tratando os filmes Perro come perro (2008) e Paramo (2011) como perversões audiovisuais das narrativas da violência colombiana. A partir de En nombre de Dios (1986), de Patricio Guzmán, Alexsandro de Sousa e Silva identifica a representação de diferentes setores da Igreja Católica na resistência à ditadura chilena de Augusto Pinochet. Marcelo Prioste encontra algo de inusitado em Di-Glauber (1977), articulando referências a Eisenstein e à cultura popular mexicana. Albert Elduque, por fim, acompanha as metáforas e formas estéticas assumidas pelo tema da carne no cinema de Joaquim Pedro de Andrade.  

    Entre os diferentes olhares presentes no Dossiê América Latina, o Ensaio fotográfico e a Entrevista voltam-se ao aqui e agora. Em Os jovens de Cuba, as lentes de Cristina Beskow buscam o lazer infantil e o lúdico, construindo um olhar saudoso às conquistas sociais cubanas, principalmente quanto ao direito à infância. A Entrevista com o documentarista chileno Patricio Guzmán foi realizada na Cinemateca Brasileira, no contexto do curso “Memória e transformação”, ministrado pelo próprio cineasta em julho de 2012. Durante a conversa, Guzmán questiona-se a respeito da memória e do documentário enquanto práticas politizadas, retomando os estudos cinematográficos na Espanha, a atuação durante o governo de Salvador Allende e as origens do Nuevo Cine Latinoamericano.

    Dentro deste número da Revista Movimento, o leitor encontrará ainda uma série de três artigos avulsos, que reafirmam a pluralidade de enfoques. Cristiane Pimentel Neder propõe uma abordagem sensitiva a respeito das sonoridades e da identidade em O céu de Lisboa (1994), de Win Wenders. A partir do cinema de Harun Farocki, Siomara Gomes Faria coloca em questão a construção do passado e o uso das imagens de arquivo; enquanto o estudo de Rafael Morato Zanatto, a respeito de Paulo Emilio Salles Gomes e Robert Wiene, realiza-se como um desdobramento da curadoria da VI Jornada Brasileira de Cinema Silencioso, ocorrida em São Paulo, em 2012.


Boa leitura.


CONSELHO EDITORIAL