Edição n. 01 / Junho de 2012


     Editorial

    A primeira edição da Revista Movimento, aqui apresentada, resulta de um semestre de intensa troca de ideias. Seu contexto de origem é particular: uma revista discente, destinada à divulgação de pesquisas acadêmicas da área do audiovisual, mas também preocupada em questionar o presente. Suas diferentes seções, contempladas na íntegra, explicitam essa dupla missão.

    O Dossiê II Jornada Discente, voltado ao Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais da ECA/USP, é uma seleção dos melhores textos apresentados no evento em outubro de 2011. A Jornada Discente alcança sua segunda edição anual, contribuindo para integração acadêmica e o debate das pesquisas do programa. Entre os materiais selecionados pelo conselho da Revista Movimento, os estudos sobre o cinema moderno ganham destaque, em termos numéricos e pela presença de abordagens interdisciplinares. A cinécriture de Agnès Varda é pensada a partir das artes plásticas e da teoria feminista; na obra de Eugène Green, são explorados os diálogos, entre a mise en scène e a experimentação barroca do Théâtre de la Sapience; o estudo sobre a idéia de autor em Claro (1975), de Glauber Rocha, faz parte de uma pesquisa que aproxima cinema e literatura latino-americana; a análise de Sans Soleil (1983), de Chris Marker, questiona as interfaces entre Imagem, História e Memória. As formas clássicas do cinema de Alfred Hitchcock, por sua vez, compõem uma história dos estilos, incluindo as suas influências sobre obras do cinema moderno.

    As relações entre cinema e ideologia, refletidas na construção de identidades ou tomadas como elemento de resistência política, também ganham evidência no Dossiê II Jornada Discente. Um dos estudos, centrado no star system, examina a noção de latinidade entre as estrelas do cinema hollywoodiano dos anos 1920. A comédia erótica vista pela da imprensa alternativa brasileira, especialmente nos jornais Opinião e Movimento, é o tema de outro dos artigos selecionados.

    Alguns dos trabalhos abordam os discursos midiáticos. Nessa linha, encontramos o exame da natureza transmidiática da telenovela brasileira, bem como uma redefinição do rádio enquanto linguagem, inspirada na teoria de Ludwing Widgenstein.

    Entre os temas do Dossiê II Jornada Discente, destacam-se ainda: o cinema brasileiro sob um viés econômico-institucional, na trajetória do empresário Francisco Serrador, ou nos filmes educativos realizados por Humberto mauro no INCE; além de pesquisas dedicadas ao documentário, com uma análise de Peões (2004), de Eduardo Coutinho, e um estudo sobre o lugar do autor e da representação do outro, a partir de Nanook, o esquimó (1922), Crise (1963) e Estamira (2004).

    A seção Tradução apresenta “O celuloide e o mármore” (1955), de Éric Rohmer. O ensaio faz parte de um projeto multiforme, onde o cineasta francês questiona a natureza do cinema diante das outras artes.

    Na Resenha, os arquivos de filmes são lembrados em sua natureza política e conceitual. O livro A Cinemateca Brasileira: das luzes aos anos de chumbo traça as origens da Cinemateca, por meio de uma história das instituições inspirada em Peter Bürger.

    Num contexto de questionamentos sobre a herança militar do país, as seções Ensaio e Entrevista exploram traços engajados, do cotidiano da universidade e da dramaturgia recente. Pode-se definir o ensaio fotográfico “A PM na USP” como uma etnografia a contrapelo; uma seleção de imagens de uma guerra particular. A partir de novembro de 2011, a presença da PM no Campus da USP gerou uma série de embates, greves e expulsões de estudantes, reavivando debates sobre o espaço público, a função da polícia universitária e a necessidade de ampliação dos fóruns de decisão coletiva.

    A Entrevista, com Dan Rosseto e Flávio Guarnieri, discute o sentido da reencenação de Eles não usam Black-tie. A retomada do texto de Gianfrancesco Guarnieri, mais de 50 anos depois da montagem pelo Teatro de Arena, questiona o diálogo com o teatro popular engajado dos anos 1950-60, bem como, a construção de uma dramaturgia voltada ao público atual.

    Encerrando a volta ao presente, a seção Documento, traz a capa do periódico Movimento (1935), numa homenagem ao crítico de cinema e professor da Escola de Comunicações Culturais/USP, Paulo Emílio Salles Gomes.

    A Revista Movimento agradece: aos colaboradores pelo envio dos textos; ao Conselho Científico pela ajuda com os trabalhos e assuntos acadêmicos; à Cinemateca Brasileira pela colaboração com o uso das imagens.

Boa leitura.


CONSELHO EDITORIAL 
movimento@usp.br

Damyler Cunha
Fábio Uchôa
Isabella Goulart
Laura Carvalho
Marcelo Prioste
Margarida Adamatti
Milena Szafir
Reinaldo Cardenuto
Tainah Negreiros