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     Edição n. 04 / Setembro de 2015


     Editorial

A quarta edição da Revista Movimento que aqui se apresenta nasce da necessidade de retomar o debate acadêmico iniciado há três anos pelo corpo discente do Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Uma publicação desta natureza exerce dupla função no universo dos estudos da pós-graduação, pois além de divulgar as recentes pesquisas de integrantes dos mais variados programas e ampliar o diálogo das investigações ainda em desenvolvimento, também cumpre seu papel no aperfeiçoamento crítico e na elaboração do pensamento científico ao propor recortes temáticos onde possam ser detectados cruzamentos, contrapontos e propostas de interação entre as instituições que se dedicam à comunicação e às artes.

A atual produção audiovisual encontra-se inserida num território heterogêneo e de abrangência múltipla, pois contempla obras que ultrapassam os limites historicamente estabelecidos pela teoria vigente. No desejo de dar maior visibilidade e criar entrelaçamentos entre as atuais pesquisas engajadas em zonas fronteiriças ao cinema, a Revista Movimento apresenta o dossiê Poéticas contemporâneas em audiovisualidades híbridas, proposto e elaborado por Carolina Berger e Danilo Baraúna. A importância de colocarmos em discussão as recentes realizações, que transitam em áreas que extrapolam os limites da categorização, se dá pelo desejo de concentrarmos nossos esforços num modo de investigação científica na qual a prática e o pensamento não possam ser debatidos separadamente. Onde o trajeto de um é construído a partir do cotejo com o outro. Sendo assim, selecionamos uma série de artigos que têm como norte esse diferencial, quer seja por terem sido escritos por artistas realizadores, como forma de ressignificar sua própria obra, quer por estudos voltados para o caráter interdisciplinar de tais produções e que vivem mutações em suas formas trans, inter ou multimídia. Tais investidas artísticas priorizam o ato ao vivo, os hibridismos tecnológicos e a fruição do público onde muitas vezes os corpos presentes, quer sejam eles do performance e/ou da audiência, constituem a própria experiência.

No conjunto de artigos selecionados para integrar nosso Dossiê priorizamos a pluralidade de tratamentos acerca das novas configurações da produção audiovisual contemporânea. Artistas como Henrique Roscoe (VJImpar), que colocam em perspectiva a própria criação - PONTO, um videogame sem vencedor - mostram como o audiovisual potencializa a performance e tem a capacidade de envolver a plateia na manipulação de seu conteúdo e de sua produção de presença. Também sob a óptica analítica acerca de um trabalho pessoal, desenvolvido de forma coletiva, Roderick Steel - Moléculas de contaminação afetiva em “Moonovosol” - utiliza o viés da contaminação afetiva de Deleuze para demonstrar como as “energias colaborativas” seguem buscando novas perspectivas para práticas conectadas às artes de vanguarda e às expressões experimentais que transitam no hibridismo audiovisual e performático.

Já em O dispositivo audiovisual contemporâneo – proposta para uma nova montagem audiovisual, Julieth Galvis esboça a construção de um movimento teórico que permite ampliar a concepção de montagem audiovisual para abarcar novas propostas no âmbito das tecnologias interdisciplinares emergentes. Uma relevante abordagem sobre os espaços de encontro com o público é o que podemos acompanhar no artigo Em favor de uma cartografia cognitiva dos espaços festivos onde VJs atuam: estratégias  na constituição de jogos dialógicos. Em seu texto Guilherme Cestari faz uma análise de relações entre VJ e público nos espaços festivos como lugares propícios à realização cognitiva de interferências e inscrições a partir da teoria dos jogos e da teoria dos grafos existenciais de Charles Sanders Peirce.

Na sequência temos Experiências Audiovisuais na cena teatral: luz, palco e tela onde Jair Sanches Molina Junior apresenta um breve percurso histórico do uso de dispositivos audiovisuais em tempo real como recurso cenográfico e interativo. Sua pesquisa concentra-se na Companhia Brasileira Teatro Oficina Uzyna Uzona, dirigida pelo ilustre Zé Celso Martinez Corrêa que nos brinda com uma entrevista na qual discorre sobre o processo de transformação dos espetáculos do grupo a partir da utilização das tecnologias do vídeo.

Dando continuidade ao segmento Entrevistas, Elisa Maria Rodrigues Barboza apresenta Vincent Morisset e Arcade Fire: destrinchando as narrativas digitais. Nessa conversa o diretor de videoclipes interativos, Vincent Morisset, discute sua participação política para o reconhecimento das narrativas digitais como uma forma autônoma pelo governo canadense. Seguindo a experiência canadense, Marina Kerber entrevista o cineasta e professor de animação Marcos Magalhães em Norman McLaren, pixilation e a animação brasileira. Além de nos contar sobre sua atuação no festival Anima Mundi e as influências do cinema de animação canadense no Brasil, o cineasta expõe o uso da técnica pixilation a partir de sua experiência no National Film Board of Canada e seu contato com Norman McLaren.

Dentro da concepção desta edição de colocar em evidência produções que mesclam prática e pensamento selecionamos dois trabalhos para a seção Poéticas. A obra Autorretrato com duração e sons variáveis III de Vivianne Vallades apresenta, por meio de fotos (capa desta edição) e texto, uma pesquisa sobre as telas que infringem e desafiam o formato plano e retangular da projeção audiovisual. Suas investigações passam por suportes de gelo, quadros perfurados e espelhos para colocar em perspectiva os conceitos de duração e efemeridade. Ainda nesta seção, Rita Natálio apresenta o trabalho A máquina de imitar Global de Grosse Fatigue, de Camille Henrot no qual a autora propõe uma análise conjunta entre a forma e o conteúdo da obra de Camille Henrot. Seu questionamento reside na maneira como imagens, provenientes de diferentes contextos culturais e históricos, convivem num mesmo espaço e, desta forma, são capazes de produzir sentido através de uma investigação rítmica dessa aproximação.

Com essa série de artigos dedicados à heterogeneidade da realização audiovisual contemporânea temos a oportunidade de oferecer nossa contribuição à expansão das diferentes formas de pensar a produção acadêmica da área. Agradecemos a colaboração de todos os autores e convidamos os leitores a percorrer as próximas páginas na consolidação de um vínculo de intercâmbios cada vez mais frutíferos.

Boa leitura.


CONSELHO EDITORIAL 
movimento@usp.br

Andréa C. Scansani, Carolina Berger, Damyler Cunha, Danilo Baraúna, Edson Costa, Marina Kerber, Raissa Araújo e Tainah Negreiros.


 
 
 

                         
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